ALICE

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Porque não te escrevo há muito...

Alice,
há uma grande qualidade que as crianças têm que, à medida que vão crescendo e ficando adultos a vão perdendo, essa grande qualidade é algo que vejo em ti, nos teus olhos, em todos os lugares que vamos. Essa qualidade faz-te ser grande, muito maior do que o metro e pouco de altura que ostentas nos teus 5 anos, essa qualidade faz-te vibrar de alegria e correr até mim apenas para dizer: "Mãe, mãe, fiz mais uma amiga!". Uma amiga, assim, em 5 minutos de conversa numa esplanada ou na areia à beira mar. Uma amiga que nunca mais irás ver mas que naquele tempo em que brincam e conversam são amigas para sempre. E nem sempre partilham o nome e gritam uma pela outra por "amiga".
Lembro-me de seres bem pequena, assim, menos de 1 metro de altura, ainda bem antes de teres 3 anos, lembro-me de entrares nas lojas e meteres conversa com outras meninas. Lembro-me da tua triste cara quando não te respondiam e te viravam as costas com o "consentimento" do pai ou da mãe, talvez contentes porque a filha não falava com quem não conhecia. Lembro-me até de um dia, numa das vezes que te ignoravam quando repetidamente tentavas falar com outra menina me perguntaste: "Mãe, aquela menina fala inglês, não é?" Mas não, não era. Era uma portuguesa, tal como a mãe daquela menina era portuguesa mas também para mim pareciam ser as duas de um outro planeta pois nem filha nem mãe foram capazes de ao menos te sorrir.
Alice, com o tempo saberás o verdadeiro significado da palavra amigo, o tempo te dirá que um amigo te completa, une-te sempre que te quebras e faz-te crescer nos momentos em que te sentes pequena. Mas agora, filha, faz todos os amigos que puderes, fala com todas as crianças que te apetecer, mesmo que te respondam: "a minha mãe não me deixa falar com estranhos" e venhas a correr com os olhos raiados dizer-me: "mas mãe, mãe eu não sou uma estranha, pois não?!".
Não percas essa qualidade infantil de achar e sentir que as crianças que contigo partilham meia-hora do teu dia, numa praia, num café ou num parque infantil são tuas amigas acabadas de fazer. E à noite, quando já deitada na cama, conversamos sobre o melhor e o pior do teu dia te digo: "Hoje fizeste novas amigas!" tu ripostas com: "Não mãe. Hoje foram amigas já feitas!" porque foi dia de encontrar quem já fez parte da tua vida em outros momentos e não quem encontraste pela primeira vez. E quando perguntas ao sair de casa: "Mãe, achas que hoje vou ter sorte?", "Sorte para quê, filha?", "Sorte de encontrar amigas minhas ou fazer novas amigas" como se isso fosse o momento alto do teu dia, a alegria de se sair de casa.
Conserva o mais que puderes essa vontade de fazer amigos, essa facilidade de conversar com outras crianças, essa alegria de brincar com quem não conheces, essa maneira de ver o que as crianças são todas iguais, sem olhar às roupas, aos brinquedos, ao país onde nasceram ou à casa onde vivem. Conserva essa ingenuidade de achar que todas as crianças gostam de conhecer outras crianças e brincar sem olhar aos preconceitos que os pais, consciente ou inconscientemente, passam aos seus filhos.
Depois cresce, mas cresce devagar, muito devagar. O tempo, os teus pais e os outros te ensinarão que ganharás amigos e perderás amigos, que serás feliz nas amizades e ficarás muito triste nas amizades porque não é possível levar connosco todos os amigos que fazemos, porque não podemos levar para casa quem não sente o mesmo que nós, porque o tempo não estica e terás de saber quem merece o teu tempo e quem só poderá ter um pouco desse tempo e ainda quem não pode sequer entrar nesse tempo.
Minha querida e maravilhosa filha (é o que os pais dizem aos seus filhos), faz amigas, conversa e brinca com amigas feitas e amigas por fazer, diverte-te, sê a criança meiga e sociável que és. Aguenta as más caras, os "não sou tua amiga" com um sorriso porque não estás a perder nada, não perdes porque todos os dias farás amigas novas.
Um dia, depois, vais crescer, já não farás amigas novas todos os dias nem em todos os lugares que fores mas terás contigo as que fizeste e que te iluminam a tua alma.

Adoro-te assim como és!

Da tua mãe

2 comentários:

ML disse...

Adoro. Que texto, carta deliciosa!

CS disse...

Bj Ml ;)