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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Quando não o diríamos melhor, transcrevemos...

Mães Reais? A pilinha, sim? (adoro o título)


 
É que é só olhar para a capa e as mães reais identificarem-se logo e já com os cabelos esticadinhos e os turbantes. Senti-me como se tivesse a olhar no espelho e tu, mãe real?!
 
 
Eu nem sou de comprar revistas. Leio-as no café, no cabeleireiro, na casa da minha mãe. Mas esta capa chamou-me a atenção no quiosque e trouxe a "Saber Viver" comigo. Queria ler o artigo sobre "Mãe Reais ("como nós"- prometia a publicação). 
Eu devia ter desconfiado pela capa: as mães "reais" ("como nós") não são todas elegantérrimas assim após parirem, não andam de turbante no dia-a-dia, têm as unhas substancialmente mais curtas (não vão, sem querer, vazar um olho aos filhos) e não se atrevem a usar colares chegadinhos ao pescoço, não vá uma mão pequenina sacar do fio e esganar a progenitora. Mas, ainda assim, comprei a revista.
Comecei por ler, com a devida culpa, que estas mães reais "conciliam trabalho e maternidade melhor que ninguém". A primeira mãe "real" retratada tem uma profissão "real". Trabalha na repartição de finanças? É contabilista numa PME? Dá aulas numa escola secundária? Não: é "publicist" e trabalha com "celebridades". Real, portanto. Uma profissão ao alcance de qualquer mãe "real".
De repente, eu, psicólogazinha deixei de ser "real" e reduzi-me à minha insignificância, perante a loira mãe real com pinta de modelo. Li a descrição das manhãs desta mãe "real": "o meu dia começa às 7h da manhã, deixo a minha filha e o meu marido e vou para o ginásio" dizia a moça, esfregando-me na cara as lembranças da minha manhã neurótica, em que acordei à mesma hora, dei comida à Ana que estava com uma birra descomunal e atirou-me com a papa pelos ares, sujando-me toda a mim e a ela (e à cozinha), teve que tomar um banho matinal extra dado pelo pai enquanto eu lhe preparava a marmita para o almoço, o pai vestiu-a enquanto eu própria tomava o segundo banho do dia, já que até na raiz do cabelo tinha Cerelac incrustada.  E suspirei.
Continuei a ler. A senhora mãe real acrescentava que nos momentos a sós gostava de "varrer uma Zara e umas lojas e pesquisar músicas". Eu, por exemplo, gosto de me sentar sem ter nada para fazer, fechar os olhos em silêncio e depois não gosto de mais nada, que ando tão cansada, que adormeço no segundo seguinte. Passei à mãe "real"seguinte.
Profissão desta mãe? "Manager". É oficial: "mãe real" que é "mãe real" tem profissões em inglês, uma chiquice que afinal não é chiquice: é a realidade. Não aguentei e passei logo à terceira, esta ao menos tinha uma profissão escrita em português: "Directora de Comunicação de... Lifestyle". Oh Diabo, tudo profissões reais, nada glamourosas, acessíveis a qualquer alminha, eu psicóloga, afinal, às páginas tantas, é que devo ter uma profissão "irreal", querem lá ver... Esta mãe, conta o segredo da conciliação das "mães reais": "tenho uma empregada doméstica, que é a minha grande ajuda para fazer jantares, ir buscá-los à escola"...
A esta altura da leitura do artigo já eu transpirava. Caramba, afinal, a mãe real não era eu: cara lavada, roupa prática para o dia-a-dia, sapatos confortáveis, sem bijuteria para não atrapalhar os colos, casa (dia sim, dia sim) desarrumada, Bimby a trabalhar ininterruptamente a fazer sopas atrás de sopas e lavandaria por actualizar desde o Carnaval (se a Minnie-mouse não morreu e foi enterrada no cesto da roupa suja acho que ainda jaz no fundo do dito o fato de carnaval da Ana...).
A mãe "real" não era eu que às vezes janto às onze da noite, depois de tratar da Ana e só tenho apetite para uma tosta mista e uma caneca de chá. A mãe "real" era esta Mariana com sobrenome sonante que, de 15 em 15 dias, faz um jantar onde mistura pessoas que não se conhecem.
Afinal, esta senhora, que a dada altura da entrevista, reclama que gostaria de ter mais cuidados consigo mesma, porque só consegue não sair de casa sem protector solar, máscara hidratante no cabelo, é viciada em batom e todos os dias usa um de cor diferente, que assim que chega a Março começa a fazer massagens linfáticas uma vez por semana e pratica twerk (seja lá isso o que for) e que só o consegue fazer porque a sua empregada deixa os pratos das crianças preparados, esta senhora é "a mãe real". Supostamente, como "nós", assim prometia a capa da revista e a esta hora já eu chorava os meus 2,5€, o valor que ela me custou. 
Eu gostava de ter tempo para dormir mais, ter saído de casa hoje com o cabelo esticado pelo alisador e não com ele húmido, de não me ter esquecido de pôr creme hidratante no rosto e não ter a pele da cara agora toda a repuxar, de ter a depilação sempre em dia, a roupa lavada e passada sempre em dia, a leitura sempre em dia e a vida em dia. De bónus uma empregada,  duas vezes por semana que fosse, que tive que despedir a minha, que isto ou vacinas fora do plano e pediatras a 75€ por consulta ou batatatinhas quentes de mulheres-a-dias: a minha vida são só escolhas destas. Serei "real"?
Eu gostava, gostava mesmo, de ser uma mãe "real". Não como "nós". Mas, sim, como "elas".

Tudo da boca de uma mãe real: http://maegyver.blogspot.pt/2014/05/maes-reais-pilinha-sim.html


Sim, elas são mães reais mas muito longe da maioria, das vivências das mães portuguesas. Elas são mães reais porque geraram e pariram tal como qualquer uma de nós, mas têm a vida de uma minoria, a vida glamorosa de quem tem empregadas, empregos de horários livres, empresárias, jovens e bonitas. Sim, mães reais, pois sim... gabo-lhes o glamour, o batom vermelho (eu cá pareço que ganharia vida numa esquina) e o cabelo esticadinho e obediente (o meu manda mais em mim que a minha própria filha).
Não li a revista mas fiquei curiosa em aprofundar o tema das mães reais :)

7 comentários:

Jardim de Algodão Doce disse...

Sabes, até compraria a revista se as mães fossem bem mais reais ;)lol.

Fashionista disse...

ah ah muito bom!

Sónia Barreto disse...

O post foi apagado! Estranho!

Dina disse...

Adorei o post daUrsa

CS disse...

Sónia, o problema estava no link. Podes tentar novamente ;)

A Pimenta* disse...

Eu acho que este tipo de reportagem não vai de encontro ao publico alvo. Se eu quero ler uma reportagem sobre mães verdadeiras, não compraria a revista. Este grupo de mães são uma minoria, beneficiam em muito de "luxos" que as mães ditas normais não têm.

CS disse...

Ai, as revistas! Só glamour. E até aposto que os bebés delas não bolsaram ou fizeram cocó...