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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sou viciada há 2 anos, 6 meses e 3 dias...

"Olá, o meu nome é Cláudia e sou viciada na minha filha há 2 anos, 6 meses e 3 dias. Não falo nela a ninguém há cerca de 2 horas e não mostro uma foto dela a ninguém há mais de 24 horas."

Nunca fui uma rapariga que sonhou ser mãe, ter filhos para uma realização pessoal de vida. Era livre, desprendida de instintos maternais e não conseguia achar graça a nenhum bebé que não conseguisse construir frases com mais de 4 ou 5 palavras, ou seja, tudo o que tivesse menos de 3 ou 4 anos. As fotos que os pais tinham nas suas carteiras parecia-me um pouco excessivo. Todas as proezas que contavam dos seus filhos parecia-me sempre pouco como se todos os bebés nascessem a falar, andar e cantar.
Sonhava viajar o mundo, correr as noites largando gargalhadas e dançando em todas as pistas. Sonhava conhecer meio mundo, encontrar caras desconhecidas e construir conversas do nada. Queria uma vida de estudo e muito trabalho. Ser a melhor na minha carreira profissional.
Sabia e tinha (quase) a certeza que seria feliz assim, afinal já o era feliz assim, porque não assim a vida toda.
Amores e desamores passavam e não ficavam. Um novo dia, lágrimas enxutas porque o sol nasce de novo para todos os que se atrevem a levantar a cabeça da almofada e a abrir as cortinas do quarto.
Um amor que chega, que fica e vai ficando. Uma conversa de filhos adiados num futuro. Um futuro que se torna presente e uma vontade de saber se é verdade o que realmente todos os pais apregoam: "Ter filhos é a melhor coisa do mundo!" Eu sabia que devia ser verdade, afinal tinha um mundo quase inteiro a dizer o mesmo, só podia ser verdade.
Sim, quero ser mãe! Sabia e sentia que se desse esse passo ia ser uma boa mãe, atenta, cuidadosa, sem fotografias dela na carteira e sem falar nela em cada palavra que saísse da minha boca mas ainda assim uma boa mãe, razoável ou dentro dos padrões aceitáveis socialmente (fosse lá o que isso significasse).
O teste de gravidez e o começo de tudo. Não chorei quando vi os dois riscos ficarem cor-de-rosa e pensei: "Ah... não vou ser uma piegas. Todas as mulheres dizem que choram quando vêm o resultado." Estava safa e livre.
A barriga a crescer e as hormonas a invadirem todo o meu ser. A primeira ecografia e o som do coração daquele pequeno ser a bater dentro de mim. Mais uma vez não chorei. Sim, estava feliz mas sem lágrimas. Afinal eu continuava a ser quem eu sempre tinha sido. A maternidade chegaria de mansinho e sem mossas de maior.
Novas ecografias, é menina. Sim, a minha preferência mas nada de choros.
Chega o dia. Mais de 24 horas em trabalho de parto. Ela, finalmente nasce e a única vez que chorei foi quando o médico disse, ao fim tantas e tantas horas, que seria cesariana. "Não... vamos esperar! Quero um parto normal!"
Aquele amor que surge ao vermos o nosso filho, aquela emoção que nos sufoca, aquela sensação de amor incondicional... não, não sei o que isso é. Falo do que vi nos filmes e do que me contaram. Comigo, sim, uma felicidade mas um cansaço tremendo, algum receio de não ser capaz, um choro estridente de 2 horas seguidas (o dela, não o meu, só chorei quando ouvi cesariana da boca do médico, já disse?) e dormir a primeira noite com ela colada ao meu peito.
Pronto, sem saber entrava num vício tremendo, numa viagem alucinante que iria moldar todo o meu ser. Aquele minúsculo bebé que acolhia nos meus braços teria um impacto e força maiores do que toda a energia do universo, do que um mundo inteiro me levantasse em braços até aos céus. Aquele minúsculo bebé seria o meu oxigénio, a minha água, o meu alimento. Sem o saber,  seria viciada nele, dia e noite em cada minuto da minha vida.
Já se passaram mais de 900 dias e o vício tornou-se mais controlado (julgo eu). Consigo passar horas seguidas sem a ver, sem a cheirar, sem ouvir a sua voz, nunca sem pensar ela. No início isso era impossível. Todo o meu corpo tremia com a falta de oxigénio e alimento.
Nunca, nunca em dias da minha vida, julguei transformar-me tanto.
Nunca, nunca em dias da minha vida, julguei que ter fotos dos filhos nas carteiras é pouco quando a vontade é de andar na rua de cartaz na mão e falar deles a todos os que se cruzam connosco.
Nunca, nunca em dias da minha vida, julguei que um passo dela, um sorriso, uma fralda com cocó, uma sopa comida sem respingar paredes fosse algo digno de constar no Livro de Recordes do Guiness.
Nunca, nunca em dias da minha vida, julguei ser possível um enamoramento e paixão constante 24 sob 24 horas em relação a outro.
Nunca, nunca, em dias da minha vida, julguei que outro ser, fosse ser dono de mim por inteiro.

"Olá, meu nome é Cláudia, e assumo-me como viciada na minha filha. Tão viciada que vou aumentar a minha dose diária com um novo filho. Sim... acho que nunca me vou conseguir livrar desse vício. Apenas vou reaprender a viver com ele, a reencontrar-me como pessoa, quando ser mãe influencia todas as minhas decisões e caminhos."
 
Aqui, feliz como nunca o fui anteriormente e viciada há 9 meses.
 
 
Este post promove o amor sem contracetivos. Caso não pretenda procriar é favor passar em frente. Caso já o tenha lido, para si, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

7 comentários:

O DIÁRIO por Mãe Solteira disse...

Fantástico
gostei tanto (mais) desta que vou ler de novo, e quem sabe, fazer dela o meu próprio testemunho

CS disse...

Obrigada. Vou gostar de ler se partilhares o teu testemunho. Reconheço uma viciada a léguas :))

Sónia Barreto disse...

Testemunho muito bonito o teu C.

Um dia...um dia...vou escrever algo parecido. De certeza!

CS disse...

Sónia e eu sei que o vou ler ;)

Anónimo disse...

BOMBÁSTICO!!!!!

A Pimenta* disse...

O texto está fenomenal!
"uma felicidade mas um cansaço tremendo, algum receio de não ser capaz" - também senti isto, aliás ainda o sinto. O medo de não ser capaz mas em compensação há muitas outras coisas boas, capazes de superar as partes menos bonitas da maternidade.

CS disse...

Sentimos sempre. Cada fase deles é um novo desafio. Quando sentimos que superámos um obstáculo, chegam outros. Ser mãe é aprender a sê-lo... nunca se sabe totalmente, nunca se tem a certeza de o fazer bem mas a vontade de dar e fazer o melhor está sempre presente.